A. Tito Filho
Nos
festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as
ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel
Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não
havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se
cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da
fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor
de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo
funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós.
BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda,
composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos,
propriedade de Pedro Tonga.
A professora de música Ana Bugyja Britto
mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da
Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco,
dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e a de
segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores
de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas
ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS.
O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os
cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar.
Dia de domingo
realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a
Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de
posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A
primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria
São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no
pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha.
CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua
alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre
novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e
Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa,
na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na
Piçarra.
No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do
corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS.
Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada,
bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da
elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas
acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro,
que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois
surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo
deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o
"Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada
gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade
das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma
pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça
Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas
graças e atrativos.
A. Tito Filho, 04/11/1988, Jornal O Dia - p. 4

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